|
Mais
simbolismo do que realidade
Por Virgílio Arraes*
A renúncia de Fidel Castro à presidência do Conselho
de Estado de Cuba tem impacto, a princípio, mais simbólico
que real. Há um ano e meio Fidel já estava afastado da
administração do País. Contudo, no plano externo,
é possível que com o ato seja sepultado o ambiente de
Guerra Fria para cubanos e norte-americanos.
Cuba deverá, aos poucos, voltar a integrar os organismos internacionais,
como a Organização dos Estados Americanos (OEA), de onde
foi expulsa em 1962. Ela gradativamente deverá adotar medidas
para adaptar-se à economia de mercado. Enfim, superará
finalmente o período da bipolaridade. Nos anos 90, o governo
Bill Clinton havia tentado distensionar o relacionamento entre os dois
países, a partir de algumas medidas na área comercial.
Por férrea oposição dos republicanos no Congresso,
nada prosperou. Em 2002, o voto dos cubanos residentes na Flórida
- representantes da maior comunidade estrangeira naquele estado - iria
maciçamente para George Bush, onde governava seu irmão,
Jeb. A vitória final republicana seria assegurada lá,
após muita controvérsia na apuração.
Como retribuição ao apoio político, o governo
Bush endureceu com Cuba: dificultou o envio de dólares para o
País e as autorizações para viagens à ilha
– uma a cada três anos para visitar parentes, não
para turismo.
Não se sabe apontar com precisão a quem tais medidas
teriam beneficiado, mas indica-se facilmente o perdedor: a empobrecida
população de lá. Com uma hipotética abertura,
os cubanos - com nível educacional acima da média da América
Latina - têm duas grandes opções econômicas:
turismo e biocombustível. Nesse sentido, descortinam-se boas
possibilidades para o empresariado brasileiro, com comprovado conhecimento
em ambos os campos. Além do mais, o relacionamento diplomático
cubano-brasileiro está em excelente grau.
Por fim, a despeito de uma política externa fracassada e desastrada,
por meio da qual se desperdiçou a solidariedade internacional
acumulada em função do atentado terrorista de 11 de setembro
ao país, o presidente George Bush poderá, ironicamente,
realizar algo jamais imaginado por seus predecessores: o restabelecimento
das relações formais entre Estados Unidos e Cuba.
* Virgílio Arraes é professor voluntário
do Instituto de Relações Internacionais da Universidade
de Brasília (UnB) e doutor em história das relações
internacionais.
|