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      Edição 244 - Julho de 2008
 

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Mais simbolismo do que realidade
Por Virgílio Arraes*

A renúncia de Fidel Castro à presidência do Conselho de Estado de Cuba tem impacto, a princípio, mais simbólico que real. Há um ano e meio Fidel já estava afastado da administração do País. Contudo, no plano externo, é possível que com o ato seja sepultado o ambiente de Guerra Fria para cubanos e norte-americanos.

Cuba deverá, aos poucos, voltar a integrar os organismos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA), de onde foi expulsa em 1962. Ela gradativamente deverá adotar medidas para adaptar-se à economia de mercado. Enfim, superará finalmente o período da bipolaridade. Nos anos 90, o governo Bill Clinton havia tentado distensionar o relacionamento entre os dois países, a partir de algumas medidas na área comercial. Por férrea oposição dos republicanos no Congresso, nada prosperou. Em 2002, o voto dos cubanos residentes na Flórida - representantes da maior comunidade estrangeira naquele estado - iria maciçamente para George Bush, onde governava seu irmão, Jeb. A vitória final republicana seria assegurada lá, após muita controvérsia na apuração.

Como retribuição ao apoio político, o governo Bush endureceu com Cuba: dificultou o envio de dólares para o País e as autorizações para viagens à ilha – uma a cada três anos para visitar parentes, não para turismo.

Não se sabe apontar com precisão a quem tais medidas teriam beneficiado, mas indica-se facilmente o perdedor: a empobrecida população de lá. Com uma hipotética abertura, os cubanos - com nível educacional acima da média da América Latina - têm duas grandes opções econômicas: turismo e biocombustível. Nesse sentido, descortinam-se boas possibilidades para o empresariado brasileiro, com comprovado conhecimento em ambos os campos. Além do mais, o relacionamento diplomático cubano-brasileiro está em excelente grau.

Por fim, a despeito de uma política externa fracassada e desastrada, por meio da qual se desperdiçou a solidariedade internacional acumulada em função do atentado terrorista de 11 de setembro ao país, o presidente George Bush poderá, ironicamente, realizar algo jamais imaginado por seus predecessores: o restabelecimento das relações formais entre Estados Unidos e Cuba.

 

* Virgílio Arraes é professor voluntário do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e doutor em história das relações internacionais.

 
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