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      Edição 244 - Julho de 2008
 

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O crescimento chinês incomoda muito
Por Milton Pomar*

O extraordinário crescimento econômico chinês incomoda muitos empresários, trabalhadores, políticos e intelectuais de direita e de esquerda da parte Ocidental do mundo. Essa constatação pode ser feita todos os dias nas rádios, TVs, newsletters, revistas e jornais de todos os tipos. Quem trabalha cotidianamente com a China há bastante tempo já se acostumou com isso. Não é fácil ouvir e ler o tempo todo tanta desinformação, tanta falta de compreensão e de tolerância com o que é diferente. Mas há certas coisas que só o tempo resolve. Certa vez li um artigo de um pesquisador de um importante órgão do governo federal, se não me engano doutor em economia, no qual ele assegurava que o crescimento chinês devia-se à proximidade do país com Hong Kong.

O artigo “Doze anos depois e tudo igual”, de Paulo Afonso Pereira, ex-presidente do INPI, vai na mesma direção. No artigo, ele afirma ter percebido “o porquê do milagre Chinês” e notado “que nada mudou”, após ter lido na internet uma matéria sobre as condições de trabalho atuais na China. Isso tudo 12 anos após ter visitado o país e conhecido lá três fábricas de sapatos, nas quais se impressionou com a precariedade das instalações e com a falta de segurança no trabalho.

Tive essa mesma impressão quando visitei empresas no interior da China, em 1997, quase duas décadas após o início das Reformas e a introdução de práticas capitalistas no país. Mas a situação que encontrei lá não é diferente da que encontrei na América do Sul e em todo o Brasil, inclusive no interior gaúcho, desde o início da minha atividade como repórter no início dos anos 80. Aliás, situação idêntica à que vi, por exemplo, em Anta Gorda, em 2001, onde uma grande indústria de calçados colocava trabalhadores para passar cola nas palmilhas dos tênis no porão da biblioteca municipal, no Centro da cidade, sem sistema de ventilação ou o uso de máscaras de proteção. Eu não consegui ficar na calçada, do lado de fora do prédio, tão forte era o cheiro da cola.

Impressionismos à parte, entender os diversos fatores que realmente explicam o fato da China, com um bilhão de pessoas em 1978 ter quadruplicado a sua economia nos últimos 30 anos, é algo fundamental para o empresariado brasileiro. Hoje a China é, objetivamente, a possibilidade da parceria decisiva para o Brasil alavancar o desenvolvimento na velocidade e dimensões necessárias. Uma das questões críticas para o crescimento chinês foi a criação e manutenção do círculo virtuoso da economia via distribuição de renda. Esse mecanismo permitiu a sustentação desse crescimento acelerado e a constituição do maior mercado consumidor do mundo.

 

* Milton Pomar, 49, é Diretor de Negócios da BWP S/A, empresa de consultoria Brasil-China.

 
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