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O
crescimento chinês incomoda muito
Por Milton Pomar*
O extraordinário crescimento econômico chinês
incomoda muitos empresários, trabalhadores, políticos
e intelectuais de direita e de esquerda da parte Ocidental do mundo.
Essa constatação pode ser feita todos os dias nas rádios,
TVs, newsletters, revistas e jornais de todos os tipos. Quem trabalha
cotidianamente com a China há bastante tempo já se acostumou
com isso. Não é fácil ouvir e ler o tempo todo
tanta desinformação, tanta falta de compreensão
e de tolerância com o que é diferente. Mas há certas
coisas que só o tempo resolve. Certa vez li um artigo de um pesquisador
de um importante órgão do governo federal, se não
me engano doutor em economia, no qual ele assegurava que o crescimento
chinês devia-se à proximidade do país com Hong Kong.
O artigo “Doze anos depois e tudo igual”, de Paulo Afonso
Pereira, ex-presidente do INPI, vai na mesma direção.
No artigo, ele afirma ter percebido “o porquê do milagre
Chinês” e notado “que nada mudou”, após
ter lido na internet uma matéria sobre as condições
de trabalho atuais na China. Isso tudo 12 anos após ter visitado
o país e conhecido lá três fábricas de sapatos,
nas quais se impressionou com a precariedade das instalações
e com a falta de segurança no trabalho.
Tive essa mesma impressão quando visitei empresas no interior
da China, em 1997, quase duas décadas após o início
das Reformas e a introdução de práticas capitalistas
no país. Mas a situação que encontrei lá
não é diferente da que encontrei na América do
Sul e em todo o Brasil, inclusive no interior gaúcho, desde o
início da minha atividade como repórter no início
dos anos 80. Aliás, situação idêntica à
que vi, por exemplo, em Anta Gorda, em 2001, onde uma grande indústria
de calçados colocava trabalhadores para passar cola nas palmilhas
dos tênis no porão da biblioteca municipal, no Centro da
cidade, sem sistema de ventilação ou o uso de máscaras
de proteção. Eu não consegui ficar na calçada,
do lado de fora do prédio, tão forte era o cheiro da cola.
Impressionismos à parte, entender os diversos fatores que realmente
explicam o fato da China, com um bilhão de pessoas em 1978 ter
quadruplicado a sua economia nos últimos 30 anos, é algo
fundamental para o empresariado brasileiro. Hoje a China é, objetivamente,
a possibilidade da parceria decisiva para o Brasil alavancar o desenvolvimento
na velocidade e dimensões necessárias. Uma das questões
críticas para o crescimento chinês foi a criação
e manutenção do círculo virtuoso da economia via
distribuição de renda. Esse mecanismo permitiu a sustentação
desse crescimento acelerado e a constituição do maior
mercado consumidor do mundo.
* Milton Pomar, 49, é Diretor de Negócios da BWP
S/A, empresa de consultoria Brasil-China.
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