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Por Alexandrino de Alencar*
Pouco mais de 30 dias depois do acidente aéreo com o vôo
3054 da TAM, partindo de Porto Alegre com destino a São Paulo,
roteiro que percorro com freqüência, ainda me pergunto: quantas
vezes viajei naquele vôo? Uma parte de mim ficou naquele acidente.
Ao receber as primeiras notícias, a reação inicial
foi sentir alívio por não estar lá. Em seguida,
despertei do conforto, diante das inúmeras ligações
que recebi de parentes e amigos perguntando se eu estava bem –
na verdade, perguntando se eu não estava lá.
Eu não estava, mas quantos colegas e amigos não estariam?
Você quer saber detalhes, saber quem viajava no avião,
mas o medo da verdade é intenso...
A primeira informação confirmou que dois colegas da
empresa estavam no vôo. Na seqüência, recebi a notícia
de que um colega de Associação de Classe também
estava. Depois, a filha de um grande amigo me informou, de Porto Alegre,
que seu pai havia pegado aquele vôo e que o irmão, que
estava em Congonhas, precisava de apoio. Nós, executivos, “seres
superiores”, quase infalíveis, aterrissamos na dura realidade
da vida, voltamos ao nosso real tamanho. O que fazer? Como aterrissar
no mundo dos “mortais”? Que lição se aproveita
deste evento?
A tristeza e a impotência afloram rapidamente. Temos que rever
nossos valores – ou seja, atrás dos números, dos
negócios, das disputas, da estratégia, da competitividade,
estão as pessoas. Ouvir a Canção da América,
do Milton Nascimento, pelo iPod (recurso do mundo moderno e, na verdade,
mais um incentivador do individualismo), me traz de volta. Em momentos
como esse, voltamos a pensar, como membros de uma comunidade, que é
preciso nos reencontrarmos como pessoas. E foi este o sentimento que
tive quando soube da morte do meu amigo Attilio Bilibio, empresário
que conheci do outro lado do balcão, em posição
antagônica, mas com quem construí uma relação
de respeito, uma amizade fraternal e familiar. Neste momento de enorme
dor, reflito sobre a importância de perceber, que atrás
de um concorrente, de um competidor, de um adversário está
uma pessoa, um pai de família e, nesse caso, um grande amigo.
* Alexandrino de Alencar é diretor da
área de Desenvolvimento de Oportunidade e Representação
da Odebrecht
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