|
O que cidades como Alvorada (TO), Marilena (PR),
Votuporanga (SP), Presidente Dutra (BA) e Farroupilha (RS) têm
em comum? Elas fazem parte da seleta lista de 37 municípios
brasileiros considerados modelos de ensino fundamental público
pelo estudo “Redes de Aprendizagem – Boas Práticas
de Municípios Que Garantem o Direito de Aprender”,
produzido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef) em parceria com o Ministério da Educação
(MEC). “São cidades que têm projetos pedagógicos
com objetivos claros e focados sempre no aluno. Assim, estão
obtendo bons resultados com ações que muitas vezes
são bastante simples”, descreve a secretária
de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar
Lacerda.
O estudo teve como ponto de partida o cruzamento
de informações e estatísticas, incluindo
a avaliação do perfil socioeconômico dos alunos,
das escolas e dos municípios e os resultados da Prova Brasil,
em que estudantes entre a 4ª e a 8ª série se
submetem a testes de Português e Matemática. Desse
cruzamento resultou um índice especial, batizado de Indicador
de Efeito de Redes Municipais (Ierm). Os 40 municípios
com melhor Ierm foram visitados por pesquisadores que investigaram
os segredos de cada um deles. Em 37 casos, o que se viu in
loco justificou o destaque no índice.
 |
| A secretária Tânia, de Realeza
(PR): vistoria pessoal nos cadernos de todos os alunos |
Um exemplo é Realeza, município
paranaense com 16 mil habitantes, localizado a 520 quilômetros
de Curitiba. A secretária municipal de Educação,
Tânia Lotiti Rodoy, faz questão de visitar todas
as salas do ensino fundamental ao longo de cada semestre, ocasião
em que “vistoria” com atenção o caderno
dos alunos e estampa um carimbo na forma de sol com os dizeres:
“Vim para ver como você está! Deixe seu caderno
sempre brilhando!”. Depois de revisar todos os cadernos
– são cerca de 1,5 mil crianças na rede pública
municipal –, Tânia avalia o desempenho geral dos alunos.
Caso identifique problemas específicos em alguma turma,
ela se reúne com o professor, com a direção
da escola e representantes do conselho técnico da secretaria
em busca de soluções. Entre os projetos de Realeza
há também o Baú do Conhecimento, um baú
itinerante repleto de livros que permanece durante algum tempo
em cada escola da rede municipal.
A atenção individual
ao aluno, a valorização da leitura, a formação
dos professores e a troca de experiências entre os profissionais
envolvidos com o ensino são alguns dos requisitos fundamentais
para a construção de uma boa rede de educação
básica
|
Foi também o incentivo à leitura
que fez Arroio do Meio (RS) se destacar na pesquisa. A idéia
de reservar aos livros 30 minutos semanais de aula parece corriqueira,
mas não é de uma hora para a outra que se consegue
fazer uma escola inteira permanecer quieta e atenta durante um
período de tempo que, em se tratando de crianças,
é longo. E não se trata de uma ação
isolada de uma escola – a prática é adotada
em toda a rede municipal. “O primeiro passo foi estimular
os professores a gostar de ler. Adquirimos livros que passam de
mão em mão, da direção aos funcionários
da escola”, conta Lourdes Maria Gasparotto Rizzo, secretária
de Educação da cidade. Uma vez por ano, a secretaria
publica uma coletânea com textos produzidos por alunos,
professores e membros da comunidade – a versão mais
recente tinha como tema a chuva. Resultado: o livro foi o grande
best seller da feira do livro da cidade. A iniciativa
já gerou a publicação de dez livros.
Para a diretora de projetos de educação
do Unicef no Brasil, Maria Salete Silva, iniciativas como essas
podem fazer toda a diferença. “É óbvio
que o acompanhamento de cada aluno e a promoção
da leitura são benéficos e trazem bons resultados
para o aprendizado, mas nem sempre o óbvio é colocado
em prática”, diz. O estudo se preocupou em identificar
cidades com projetos homogêneos, que assegurem boas condições
de ensino em toda a rede municipal, e não iniciativas isoladas
de uma ou outra escola. Com base na análise desses casos,
foram relacionados dez requisitos fundamentais para a construção
de uma rede de aprendizagem eficaz – entre eles, a atenção
individual ao aluno, a valorização da leitura, a
troca de experiências entre os profissionais envolvidos
no processo de ensino e o investimento na formação
dos professores.
Um bom exemplo nesse último item vem de
Guaramirim, no norte catarinense, cidade com 30 mil habitantes.
Todos os professores da rede básica de ensino foram qualificados
com curso superior – a maior parte deles em Pedagogia, por
meio de um convênio com a Universidade do Estado de Santa
Catarina (Udesc). Outra iniciativa que está dando bons
frutos foi designar professores exclusivos para reforçar
o ensino aos alunos que não conseguem acompanhar o ritmo
de aprendizagem da turma – atividade que ocorre no turno
inverso àquele em que a criança comparece às
aulas normais. Também foi criado o Centro de Assistência
à Saúde e à Educação (Case),
que conta com psicóloga, fonoaudióloga, psicopedagoga
e especialistas em questões motoras e em educação
de portadores de deficiências. “O mérito pelo
reconhecimento que estamos recebendo deve ser compartilhado entre
o poder público, as escolas e a comunidade, pois cada um
dá sua parcela de contribuição”, ressalta
a secretária de Educação de Guaramirim, Maria
Inês Correa Fernandes.
Um dos objetivos do estudo ao identificar e descrever
iniciativas bem-sucedidas é demonstrar que elas podem ser
replicadas em outros municípios ou até mesmo se
tornar políticas públicas nas esferas estaduais
ou federal. A maior parte das 37 cidades incluídas na lista
tem menos de 50 mil habitantes. Há apenas duas capitais,
e ainda assim estão entre as menores do país e em
Estados pobres: Teresina, no Piauí, e Rio Branco, no Acre.
“Se muitos municípios pequenos e com poucos recursos
estão conseguindo fazer um belo trabalho no ensino fundamental,
por que os grandes e ricos não conseguiriam?”, questiona
Maria Salete, do Unicef.
 |
| Incentivo à leitura: os poucos
livros ficam um tempo em cada escola |
|