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Depois de quase duas décadas na liderança
executiva da empresa, como foi a sensação de enfrentar
não só o day after, mas as semanas e os
meses seguintes? O que mudou na sua vida?
É preciso fazer algumas coisinhas que te ajudam nessa mudança.
A primeira coisa que eu fiz foi algo muito parecido com o que
os fundadores fizeram. Passei 45 dias isolado da Weg. Fui com
a família para a Austrália, aluguei um apartamento
e fiquei um mês por lá. Depois, na volta, fiquei
mais 15 dias na praia. Acho que neste período todo eu fiz
três ou quatro telefonemas e respondi a dois ou três
e-mails, e mais nada. E quando se volta de uma jornada
destas, a gente sempre que está pensando e fazendo diferente.
Se eu continuasse em Jaraguá, as pessoas iriam me localizar
mais fácil. Os problemas iriam me achar... Eu pegaria o
carro pela manhã e, sem me dar conta, estaria entrando
na sala do Harry. É natural, a gente fica condicionado...
Acho complicado, embora não totalmente impossível,
esse negócio de um presidente deixar a posição
mas permanecer na mesma sala, no mesmo escritório... Sempre
haverá o risco de ele interferir... ou de os outros interferirem
no sentido de puxá-lo, de fazer com que se envolva nos
problemas. Por isso, a decisão de me afastar.
Você disse que os fundadores também fizeram
esta espécie de retiro.
Lá atrás, quando eu assumi, eles fizeram o mesmo.
Alguns dias depois, os três embarcaram com as esposas para
uma viagem de 30 dias pela Europa. A diferença é
que eles ainda fizeram algumas visitas institucionais. Eu, não,
fiquei totalmente isolado. Mas eles não interferiram em
nada, aqui. Durante aqueles 30 dias, não ligaram para cá...
Eles até fizeram algumas visitas, visitas mais institucionais,
de negócios (...) e o mundo também mudou. Eu fiquei
lá totalmente isolado (...) mas eles não interferiram,
não ligaram naqueles trinta dias para cá. E o interessante
é que, dois dias depois que eles viajaram, teve início
a única greve que houve aqui na Weg. A rigor, já
tinha havido uma greve, ainda na gestão do meu pai, mas
ele resolveu o assunto em algumas horas... Quando entrei, em 1990,
o cenário no Brasil era de uma recessão enorme.
Éramos líderes de mercado, mas nosso negócio
era muito dependente de motores. Na época, tivemos de demitir
quase três mil pessoas, e deflagramos um processo de redução
de jornada de trabalho e de redução de salários
para manter as equipes e salvar os empregos... Aí o sindicato
conduziu uma greve que paralisou cerca de 30% da empresa... Fechei
o acordo com o sindicato 18 dias depois.
Um início traumático.
Foi bastante traumático, um início realmente desafiador.
Mas acho que é bom. Tempera. Fui temperado com sal... Agora,
o novo presidente também tem desafios enormes. A empresa
está implantando um novo sistema de informática,
e isso mexe com a organização toda. E tem todos
este processo de internacionalização para tocar.
Se nós consolidamos Europa e América, a nova gestão
tem o grande desafio de consolidar a Ásia. E tudo isso
em meio à crise de perda de valor do dólar, que
é outro desafio. Mas tudo isso tempera... Estou muito confiante
na nova equipe.
Não foi difícil suportar a idéia
de que ninguém ligava, ninguém recorria a você
para resolver algum problema?
De vez em quando eu olhava o telefone para ver se tinha alguma
chamada. E minhas filhas brincavam comigo: “Por que está
olhando? Ninguém vai te chamar.” O afastamento foi,
de fato, muito importante. Assim como a decisão de ocupar
meu tempo nesta nova fase com outras coisas, outras ocupações.
Além da Weg Participações, eu tenho a presidência
do conselho da Weg, também assumiu em outros conselhos
de administração de empresas daqui do Brasil...
E também tenho um monte de hobbies, que agora
posso desfrutar por ter um pouquinho mais de tempo... Eu gosto
muito de mato, de praia... E também de esporte. Gosto de
jet ski, gosto de quadriciclo, sou jogador de futebol... Eu queria
ser jogador de futebol, mas meu pai não aceitou. Mas eu
ainda tomo minhas caneladas, aos 50 anos...
No futebol, qual é sua posição
e suas características?
Sempre fui ponta. Ponta-direita. Aquele do tipo rápido,
que baixa a cabeça, dribla e vai ao fundo cruzar. Minha
tendência era encarar o zagueiro, tentar passar por ele
na base da velocidade. Meu forte era o arranque. Joguei em clubes
aqui de Jaraguá no infantil, no juvenil... Mas, depois,
como não tinha tempo nem para a faculdade, e também
não tinha estatura, deixei o futebol para trás.
Mas jogo futsal toda semana. Se estou em Jaraguá na quinta-feira,
só um cliente, mesmo, para me tirar da quadra.
Os dias ficaram um pouco mais longos?
É, estou reduzindo as horas de trabalho. Agora, me dou
ao luxo de tirar uma tarde de folga durante a semana. Não
vou trabalhar as 55 horas semanais de antes, vou ter uma carga
menor. Acho que agora vai ter muito menos suor e um pouco mais
de inspiração. Eu sempre acreditei que os momentos
de criação não precisam acontecer dentro
do escritório. Aliás, costumam acontecer fora dele.
Sempre usei essa técnica de ter à mão caneta
e papel para anotar idéias que tenho, seja na cama, antes
de dormir, numa caminhada, tomando uma cerveja... E as idéias
que a gente tem quando não está no escritório
variam de uma coisinha simples a uma grande estratégia.
Agora, tu tens que estar aberto para isso...
A primeira coisa que fiz (depois de
deixar o cargo) foi algo
parecido com o que os fundadores fizeram em 1989.
Eles viajaram com as esposas para a Europa por 30 dias e
nesse período nem ligaram pra cá
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| Werner Ricardo Voigt, Eggon João
da Silva e Geraldo Werninghaus (já falecido) |
E o planejamento dos dias, depois que se deixa a liderança
executiva de uma empresa do tamanho da Weg, como é pensado?
Uma coisa que eu sempre usei e continuo a usar agora é
o hábito de escrever o que vou fazer. De manhã cedo,
preciso colocar no papel como vai ser o meu dia. Aliás,
faço isso no final do dia anterior. Depois, de manhã,
dou uma ajeitada final. Porque se tu não fizeres isso,
o que vai acontecer é que tu vais fazer não o que
tu queres, mas o que os outros querem que tu faças, apenas.
Na minha opinião, um dos segredos da vida executiva é
saber administrar o tempo. Eu sempre tive o meu plano do dia e
também o meu plano atual. Fora, é claro, o plano
da companhia. Preciso saber o que vou ter de fazer, com quem -
e como - vou ter de interagir para liderar um determinado processo.
Então, tenho as minhas metas. Outra coisa que eu nunca
esqueço de fazer, que é muito da nossa cultura aqui
na Weg, é falar com um cliente. Sempre, todo dia. De algum
modo, para eu ter um dia fechado, perfeito, como executivo, eu
precisava ter contato com um cliente – ou visitar algum
deles, ou ligar, ou receber um telefonema ou mesmo uma visita
de um deles. Por quê? Porque é ali, no cliente, que
começa tudo. A companhia tem que ser voltada para o mercado.
Ele tem que ser construída de fora para dentro... O contato
diário com o cliente é meu contato diário
com a realidade.
Ao transmitir o cargo de presidente, você se disse
animado com o momento vivido pelo Brasil mas preocupado com aspectos
que abalam a competitividade da empresa brasileira. Foi um discurso
político. Você pensa em fazer política empresarial
ou, mesmo, ingressar na vida pública?
Não, não. E eu não tenho. Para alguém
se entregar à função pública, é
preciso, além de competência técnica, entrar
de corpo e alma – como eu fiz, aqui na Weg. E essa (vida
pública) não é a minha escolha. Não
tenho nenhuma ambição ou desejo nessa área,
nem mesmo em relação à representação
da área empresarial. Minha preocupação é
apenas mostrar que, embora esteja crescendo e viva um momento
excelente, o Brasil não pode deixar de enxergar alguns
riscos. O ponto mais sensível para mim é que estamos
perdendo competitividade. Claro, muitas empresas se beneficiam
do crescimento que a economia mundial está apresentando,
da valorização de matérias-primas que o Brasil
produz... Mas isso não deve encobrir algumas ineficiências
que nós temos.
Que ineficiências preocupam mais?
Uma delas é o câmbio. Se o dólar continuar
nesse momento descendente, que é mais forte em relação
ao real, poderemos ter muitos setores com dificuldade para competir
lá fora. Ok, câmbio é um assunto delicado,
muito técnico, mas acho que é preciso estudar medidas.
Algumas coisas dá para fazer. Por exemplo, diminuir os
gastos do setor público como um todo. Do município
à União, o Estado deve reduzir despesas –
como fazem as empresas. Com isso, se pode baixar o juro real,
que chegou ao limite do suportável. Porque, nesse nível,
o juro onera o custo de capital e a produção atrai
o capital especulativo, desvalorizando ainda mais o dólar.
Entendo a preocupação do governo com o controle
da inflação. Mas o que não podemos, em hipótese
nenhuma, é em mudar a curva dos juros, jogar as taxas para
cima... O juro deve cair. Porque essa diferença entre o
juro brasileiro e o juro norte-americano só serve para
trazer para cá o capital especulativo. E aí bate
no dólar, e bate nos setores que exportam.
O Estado precisa rever seu tamanho e seu modelo?
É fundamental reduzir e simplificar a carga tributária.
E, para isso, além de enxugar despesa, o Estado tem que
mexer no sistema de arrecadação e fazer com que
mais paguem menos... Porque isso vai ser benéfico para
o contribuinte e também para o setor público. Sei
que falar é mais difícil do que fazer. Mas quem
já tentou fazer isso viu que funciona. Essas são
mudanças altamente estratégicas. Também é
importantíssimo acelerar os investimentos públicos
em infra-estrutura. Porque se não for assim vamos bater
de novo nos limites do crescimento, como aconteceu há poucos
anos, em áreas como energia, portos, rodovias. Não
podemos ficar discutindo se a crise de energia será em
2009 ou em 2010... Ainda dependemos do regime de chuvas! É
inaceitável que ainda não tenhamos a conclusão
das obras de duplicação da BR-101 de Porto Alegre
até São Paulo...O dia em que isso ficar pronto já
será insuficiente. Aqui, no trecho de Itajaí, como
admitir que se leve cinco horas para percorrer 180 quilômetros?
São ineficiências que precisam ser atacadas.
Nesta nova etapa de sua vida, à frente da Weg
Participações, em vez de comandar uma indústria
você terá de atuar como investidor. É muito
diferente?
É uma fase inteiramente nova. Eu diria que estou num processo
de aprendizado, de adaptação a este desafio de ver
as coisas de um modo diferente. Até ontem minha vida era
gerenciar uma equipe, desenvolver um produto, fazer um plano de
marketing, olhar a concorrência, definir que diferencial
iríamos aplicar ao produto... Agora é preciso se
apegar menos a detalhes e ter um olhar mais macro, para saber
onde os recursos serão investidos... Por isso foi importante
aquela parada, aquela ferramentazinha. Para mudar, para começar
a pensar diferente. Para tentar ser um pouco diferente do que
eu era.
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