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      Edição 242 - Maio de 2008
 

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Depois de quase duas décadas na liderança executiva da empresa, como foi a sensação de enfrentar não só o day after, mas as semanas e os meses seguintes? O que mudou na sua vida?
É preciso fazer algumas coisinhas que te ajudam nessa mudança. A primeira coisa que eu fiz foi algo muito parecido com o que os fundadores fizeram. Passei 45 dias isolado da Weg. Fui com a família para a Austrália, aluguei um apartamento e fiquei um mês por lá. Depois, na volta, fiquei mais 15 dias na praia. Acho que neste período todo eu fiz três ou quatro telefonemas e respondi a dois ou três e-mails, e mais nada. E quando se volta de uma jornada destas, a gente sempre que está pensando e fazendo diferente. Se eu continuasse em Jaraguá, as pessoas iriam me localizar mais fácil. Os problemas iriam me achar... Eu pegaria o carro pela manhã e, sem me dar conta, estaria entrando na sala do Harry. É natural, a gente fica condicionado... Acho complicado, embora não totalmente impossível, esse negócio de um presidente deixar a posição mas permanecer na mesma sala, no mesmo escritório... Sempre haverá o risco de ele interferir... ou de os outros interferirem no sentido de puxá-lo, de fazer com que se envolva nos problemas. Por isso, a decisão de me afastar.

Você disse que os fundadores também fizeram esta espécie de retiro.
Lá atrás, quando eu assumi, eles fizeram o mesmo. Alguns dias depois, os três embarcaram com as esposas para uma viagem de 30 dias pela Europa. A diferença é que eles ainda fizeram algumas visitas institucionais. Eu, não, fiquei totalmente isolado. Mas eles não interferiram em nada, aqui. Durante aqueles 30 dias, não ligaram para cá... Eles até fizeram algumas visitas, visitas mais institucionais, de negócios (...) e o mundo também mudou. Eu fiquei lá totalmente isolado (...) mas eles não interferiram, não ligaram naqueles trinta dias para cá. E o interessante é que, dois dias depois que eles viajaram, teve início a única greve que houve aqui na Weg. A rigor, já tinha havido uma greve, ainda na gestão do meu pai, mas ele resolveu o assunto em algumas horas... Quando entrei, em 1990, o cenário no Brasil era de uma recessão enorme. Éramos líderes de mercado, mas nosso negócio era muito dependente de motores. Na época, tivemos de demitir quase três mil pessoas, e deflagramos um processo de redução de jornada de trabalho e de redução de salários para manter as equipes e salvar os empregos... Aí o sindicato conduziu uma greve que paralisou cerca de 30% da empresa... Fechei o acordo com o sindicato 18 dias depois.

Um início traumático.
Foi bastante traumático, um início realmente desafiador. Mas acho que é bom. Tempera. Fui temperado com sal... Agora, o novo presidente também tem desafios enormes. A empresa está implantando um novo sistema de informática, e isso mexe com a organização toda. E tem todos este processo de internacionalização para tocar. Se nós consolidamos Europa e América, a nova gestão tem o grande desafio de consolidar a Ásia. E tudo isso em meio à crise de perda de valor do dólar, que é outro desafio. Mas tudo isso tempera... Estou muito confiante na nova equipe.

Não foi difícil suportar a idéia de que ninguém ligava, ninguém recorria a você para resolver algum problema?
De vez em quando eu olhava o telefone para ver se tinha alguma chamada. E minhas filhas brincavam comigo: “Por que está olhando? Ninguém vai te chamar.” O afastamento foi, de fato, muito importante. Assim como a decisão de ocupar meu tempo nesta nova fase com outras coisas, outras ocupações. Além da Weg Participações, eu tenho a presidência do conselho da Weg, também assumiu em outros conselhos de administração de empresas daqui do Brasil... E também tenho um monte de hobbies, que agora posso desfrutar por ter um pouquinho mais de tempo... Eu gosto muito de mato, de praia... E também de esporte. Gosto de jet ski, gosto de quadriciclo, sou jogador de futebol... Eu queria ser jogador de futebol, mas meu pai não aceitou. Mas eu ainda tomo minhas caneladas, aos 50 anos...

No futebol, qual é sua posição e suas características?
Sempre fui ponta. Ponta-direita. Aquele do tipo rápido, que baixa a cabeça, dribla e vai ao fundo cruzar. Minha tendência era encarar o zagueiro, tentar passar por ele na base da velocidade. Meu forte era o arranque. Joguei em clubes aqui de Jaraguá no infantil, no juvenil... Mas, depois, como não tinha tempo nem para a faculdade, e também não tinha estatura, deixei o futebol para trás. Mas jogo futsal toda semana. Se estou em Jaraguá na quinta-feira, só um cliente, mesmo, para me tirar da quadra.

Os dias ficaram um pouco mais longos?
É, estou reduzindo as horas de trabalho. Agora, me dou ao luxo de tirar uma tarde de folga durante a semana. Não vou trabalhar as 55 horas semanais de antes, vou ter uma carga menor. Acho que agora vai ter muito menos suor e um pouco mais de inspiração. Eu sempre acreditei que os momentos de criação não precisam acontecer dentro do escritório. Aliás, costumam acontecer fora dele. Sempre usei essa técnica de ter à mão caneta e papel para anotar idéias que tenho, seja na cama, antes de dormir, numa caminhada, tomando uma cerveja... E as idéias que a gente tem quando não está no escritório variam de uma coisinha simples a uma grande estratégia. Agora, tu tens que estar aberto para isso...

A primeira coisa que fiz (depois de deixar o cargo) foi algo
parecido com o que os fundadores fizeram em 1989.
Eles viajaram com as esposas para a Europa por 30 dias e
nesse período nem ligaram pra cá


Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus (já falecido)

E o planejamento dos dias, depois que se deixa a liderança executiva de uma empresa do tamanho da Weg, como é pensado?
Uma coisa que eu sempre usei e continuo a usar agora é o hábito de escrever o que vou fazer. De manhã cedo, preciso colocar no papel como vai ser o meu dia. Aliás, faço isso no final do dia anterior. Depois, de manhã, dou uma ajeitada final. Porque se tu não fizeres isso, o que vai acontecer é que tu vais fazer não o que tu queres, mas o que os outros querem que tu faças, apenas. Na minha opinião, um dos segredos da vida executiva é saber administrar o tempo. Eu sempre tive o meu plano do dia e também o meu plano atual. Fora, é claro, o plano da companhia. Preciso saber o que vou ter de fazer, com quem - e como - vou ter de interagir para liderar um determinado processo. Então, tenho as minhas metas. Outra coisa que eu nunca esqueço de fazer, que é muito da nossa cultura aqui na Weg, é falar com um cliente. Sempre, todo dia. De algum modo, para eu ter um dia fechado, perfeito, como executivo, eu precisava ter contato com um cliente – ou visitar algum deles, ou ligar, ou receber um telefonema ou mesmo uma visita de um deles. Por quê? Porque é ali, no cliente, que começa tudo. A companhia tem que ser voltada para o mercado. Ele tem que ser construída de fora para dentro... O contato diário com o cliente é meu contato diário com a realidade.

Ao transmitir o cargo de presidente, você se disse animado com o momento vivido pelo Brasil mas preocupado com aspectos que abalam a competitividade da empresa brasileira. Foi um discurso político. Você pensa em fazer política empresarial ou, mesmo, ingressar na vida pública?
Não, não. E eu não tenho. Para alguém se entregar à função pública, é preciso, além de competência técnica, entrar de corpo e alma – como eu fiz, aqui na Weg. E essa (vida pública) não é a minha escolha. Não tenho nenhuma ambição ou desejo nessa área, nem mesmo em relação à representação da área empresarial. Minha preocupação é apenas mostrar que, embora esteja crescendo e viva um momento excelente, o Brasil não pode deixar de enxergar alguns riscos. O ponto mais sensível para mim é que estamos perdendo competitividade. Claro, muitas empresas se beneficiam do crescimento que a economia mundial está apresentando, da valorização de matérias-primas que o Brasil produz... Mas isso não deve encobrir algumas ineficiências que nós temos.

Que ineficiências preocupam mais?
Uma delas é o câmbio. Se o dólar continuar nesse momento descendente, que é mais forte em relação ao real, poderemos ter muitos setores com dificuldade para competir lá fora. Ok, câmbio é um assunto delicado, muito técnico, mas acho que é preciso estudar medidas. Algumas coisas dá para fazer. Por exemplo, diminuir os gastos do setor público como um todo. Do município à União, o Estado deve reduzir despesas – como fazem as empresas. Com isso, se pode baixar o juro real, que chegou ao limite do suportável. Porque, nesse nível, o juro onera o custo de capital e a produção atrai o capital especulativo, desvalorizando ainda mais o dólar. Entendo a preocupação do governo com o controle da inflação. Mas o que não podemos, em hipótese nenhuma, é em mudar a curva dos juros, jogar as taxas para cima... O juro deve cair. Porque essa diferença entre o juro brasileiro e o juro norte-americano só serve para trazer para cá o capital especulativo. E aí bate no dólar, e bate nos setores que exportam.

O Estado precisa rever seu tamanho e seu modelo?
É fundamental reduzir e simplificar a carga tributária. E, para isso, além de enxugar despesa, o Estado tem que mexer no sistema de arrecadação e fazer com que mais paguem menos... Porque isso vai ser benéfico para o contribuinte e também para o setor público. Sei que falar é mais difícil do que fazer. Mas quem já tentou fazer isso viu que funciona. Essas são mudanças altamente estratégicas. Também é importantíssimo acelerar os investimentos públicos em infra-estrutura. Porque se não for assim vamos bater de novo nos limites do crescimento, como aconteceu há poucos anos, em áreas como energia, portos, rodovias. Não podemos ficar discutindo se a crise de energia será em 2009 ou em 2010... Ainda dependemos do regime de chuvas! É inaceitável que ainda não tenhamos a conclusão das obras de duplicação da BR-101 de Porto Alegre até São Paulo...O dia em que isso ficar pronto já será insuficiente. Aqui, no trecho de Itajaí, como admitir que se leve cinco horas para percorrer 180 quilômetros? São ineficiências que precisam ser atacadas.

Nesta nova etapa de sua vida, à frente da Weg Participações, em vez de comandar uma indústria você terá de atuar como investidor. É muito diferente?
É uma fase inteiramente nova. Eu diria que estou num processo de aprendizado, de adaptação a este desafio de ver as coisas de um modo diferente. Até ontem minha vida era gerenciar uma equipe, desenvolver um produto, fazer um plano de marketing, olhar a concorrência, definir que diferencial iríamos aplicar ao produto... Agora é preciso se apegar menos a detalhes e ter um olhar mais macro, para saber onde os recursos serão investidos... Por isso foi importante aquela parada, aquela ferramentazinha. Para mudar, para começar a pensar diferente. Para tentar ser um pouco diferente do que eu era.  

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