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O advento da internet e de outros meios eletrônicos
que distribuem conhecimento e serviços em escala planetária
– e em tempo real – trouxe uma enorme dor de cabeça
aos especialistas em tributos e burocratas do fisco ao redor do
mundo: como mensurar a riqueza que circula em negócios
de contornos “imateriais” e transformá-la em
bens sujeitos à incidência de impostos? O desafio
é tão grande, e envolve um debate tão acalorado,
que já vem sendo classificado pelos estudiosos do tema
como o início de uma “nova era” tributária.
Decorrência direta do desenvolvimento dos
meios de comunicação, o surgimento de novos negócios
típicos da era digital está criando um universo
de bens e conhecimentos que permanece inexplorado, para não
dizer desconhecido, pelos sistemas tributários vigentes
na maioria das nações. Nesse universo se incluem
desde a prestação de serviços especializados
pela internet até os ativos intangíveis das corporações,
passando pela circulação de divisas nos mercados
financeiros globais. Tudo muito recente e dinâmico.
Para reduzir o risco de ter sua receita fiscal
prejudicada ao longo dos próximos anos, o Brasil já
se mobiliza na busca de soluções. Um passo fundamental
é estabelecer parâmetros técnicos e jurídicos
para detectar a riqueza imaterial e, assim, criar mecanismos de
tributação. Não há muitas referências
internacionais nas quais se espelhar, já que o tema é
recente demais para ter gerado modelos comprovadamente de sucesso.
A preocupação já está presente em
vários países, mas ainda não desaguou em
propostas viáveis e resultados concretos.
Em conjunto com a Receita Federal, o Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) iniciou um estudo
para mapear tudo o que nasceu com a economia pós-industrial
e que pode, eventualmente, estar escapando das mãos do
fisco. De acordo com o presidente do Ipea, Márcio Pochmann,
o estudo ainda está em fase inicial e não tem prazo
para ser concluído, mas o foco será principalmente
na riqueza associada à produção imaterial
e ao acúmulo do conhecimento. Pochmann considera que a
disposição para investigar esse novo tipo de riqueza,
não capturada adequadamente pelo atual modelo, é
tão importante quanto a regulamentação do
imposto sobre grandes fortunas e a maior diferenciação
de alíquotas no Imposto de Renda da Pessoa Física
(IRPF), propostas sempre citadas quando se discute a necessidade
de uma reforma tributária no país.
O presidente do Ipea lembra que a estrutura econômica
de hoje é muito diferente daquela em que os sistemas tributários
dos países foram concebidos. “Eles se apoiavam na
propriedade e no trabalho físico, englobando empresas,
produtos, salários etc. Com a maior importância que
o trabalho ‘imaterial’ foi ganhando nos últimos
tempos, sobretudo no setor de serviços, surgiram novas
formas de riqueza associadas ao conhecimento. Algumas delas são,
de fato, quase intangíveis aos olhos dos padrões
estabelecidos”, considera Pochmann.
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“A estrutura
econômica de hoje é muito diferente daquela em
que os sistemas tributários dos países foram
concebidos. Daí a necessidade de reformular esses sistemas”
Márcio Pochmann - Presidente do Ipea |
Questão
de justiça
Mais do que um mecanismo para reforçar
a arrecadação dos governos, a adaptação
da cobrança de tributos aos novos tempos é uma questão
de justiça para com o conjunto da sociedade, avalia Pochmann.
Se as riquezas imateriais permanecerem à margem da tributação,
a pressão dos impostos sobre a produção física
continuará aumentando na mesma proporção
em que avançam as tecnologias digitais.
Uma das estratégicas tidas como mais eficazes
para detectar as diferentes modalidades de circulação
de riqueza é o monitoramento das movimentações
financeiras. Pochmann considera que o Brasil havia dado um passo
importante nessa direção com a CPMF, mas acabou
voltando à estaca zero com o fim da contribuição.
“Enquanto o PIB mundial está em torno de US$ 48 trilhões,
os mercados financeiros têm ativos de US$ 150 trilhões
em circulação. Mas a estrutura tributária
ainda está mais voltada aos US$ 48 trilhões, e essa
é uma preocupação pertinente dos governos”,
diz o presidente do Ipea.
O tributarista Alexandre Tadeu Navarro, sócio
do escritório paulista Navarro Advogados, concorda que
a extinção da CPMF não foi uma boa solução
técnica. “Ainda que houvesse uma grande pressão
contra a contribuição, principalmente por ter sido
criada para durar um tempo determinado, extingui-la acabou sendo
um retrocesso. A CPMF era uma forma eficiente de captar a fluidez
dos mercados e de tributar os movimentos financeiros”, considera.
Navarro critica a “birra” política que se criou
em torno do tema. “Como não houve uma discussão
técnica em torno da proposta de extinção
da CPMF, perdeu-se uma chance de aprendizado e de evolução”,
avalia.
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