| Quando chegam ao Bloco “J”
da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, os funcionários
do Ministério do Desenvolvimento sabem que o chefe já
está em seu gabinete, provavelmente desde antes das 8h,
disparando e-mails e ligações para controlar o andamento
de tudo o que não pôde ser resolvido no dia anterior.
Nada que não seja familiar aos ex-colegas de Miguel Jorge
nas vice-presidências que acumulou no Banco Santander, entre
2001 e 2007, ou àqueles que conviveram com ele ao longo
dos13 anos em que dirigiu a Volkswagen e a Autolatina. Ou, ainda,
aos lornalistas que comandou como diretor de Redação
do jornal O Estado de São Paulo, de 1977 a 1987. É
esta objetividade que, aos 62 anos, Miguel leva para a máquina
pública – além do pragmatismo de quem passou
a vida correndo atrás de resultados, na lida diária
com concorrentes que não dormem no ponto. Nesta entrevista
a AMANHÃ, este “paulista” nascido em Minas,
na pequena Ponte Nova, diz como espera construir uma nova articulação
entre governo e empresas – desafio que tem sua etapa mais
crítica na política industrial a ser anunciada este
mês.
Em que se fundamenta a política industrial do
governo?
O que o país precisa, na minha visão, é algo
que até não chamo de política industrial.
Tenho preferido chamar esta política de “um projeto
de desenvolvimento produtivo do país”. É uma
coisa mais ampla. É você ter a capacidade de coordenar
esforços para que os principais setores da economia possam
fazer seu trabalho de maneira mais eficiente e competitiva. Este
é o conceito. Mas, como já vinha do primeiro mandato
deste governo, a expressão “política industrial”
acabou carimbando as medidas que estamos pensando.
É uma expressão antiga, e que já
suscitou um debate ideológico contundente...
Há uma resistência, especialmente no campo do pensamento
liberal e também de alguns acadêmicos. Porque as
políticas industriais, tradicionalmente, têm o viés
de escolher dois, quatro ou cinco setores que deverão ser
privilegiados. Geralmente vêm acompanhadas de uma manifestação
do tipo “Nós vamos apoiar tais setores”. Não
se trata disso, neste momento. Nós colocamos, no âmbito
do plano de desenvolvimento produtivo, todos os setores importantes
da economia brasileira. São 25 setores, divididos em três
grandes grupos setoriais. No primeiro grupo estão os segmentos
mais frágeis, que sofrem com a competição,
especialmente com os países asiáticos, como a indústria
têxtil e a de calçados. O segundo grupo reúne
setores empresariais que estão maduros. Já passaram
por uma reestruturação e hoje operam com eficiência
produtiva, mas ainda precisam se credenciar para dar o grande
salto. O caso mais emblemático é o da indústria
automobilística. E há um terceiro grupo de setores
em que o Brasil é claramente líder. Estão
aí a indústria aeronáutica e de mineração,
por exemplo. Neste grupo, é preciso criar condições
para que mantenhamos nossa liderança.
Como se dará esta coordenação de
ações e que papel o governo terá?
Nos quase 15 anos em que participei do setor automotivo, senti
falta de uma coordenação de governo entre os vários
subsetores da indústria. De toda a indústria, não
apenas a automobilística. Eu uso o setor automotivo como
exemplo apenas porque foi onde atuei e, também, porque
tem um processo produtivo muito longo e abrangente. É um
segmento que se presta a este conceito que eu defendo de integração
dos fabricantes de toda a cadeia. No caso da indústria
automobilística, você vai desde os forjados e os
fundidos até as autopeças, a montagem das autopeças,
a cadeia do plástico e da borracha, do aço, da nafta,
passando pela montagem final e depois exportação
e absorção da tecnologia. Hoje, a indústria,
para conversar com o governo, ela tem de ir a vários lugares
e conversar com diferentes interlocutores. Nosso projeto é
fazer com que o governo coordene os esforços de todas as
cadeias industriais numa área só, para que não
haja dispersão.
Quais são as perspectivas do grupo mais frágil
de setores?
Estes setores não tiveram a preocupação de
se modernizar, de buscar a eficiência, de perseguir um aumento
de produtividade. Durante muito tempo, não foram afetados
por importações. A partir do momento em que começaram
a chegar os produtos concorrentes, a ferida apareceu. A indústria
de calçados do Rio Grande do Sul é um claro exemplo
disso. O primeiro movimento foi migrar para o Nordeste. Mas, agora,
nem no Nordeste os fabricantes de calçados estão
conseguindo ser muito competitivos. Então, a solução
deve ser buscada na raiz do problema. Por que a dificuldade para
competir se mantém? Você não faz uma empresa
ser competitiva à base de subsídios e redução
de custo salarial. Você faz com investimentos em modernização
tecnológica, explorando novos nichos, agregando valor.
Veja que a receita de exportação do setor de calçados
aumentou 7,5%, mas o número de unidades embarcadas cresceu
apenas 2,5%. É o caminho: agregação de valor.
O grupo das índústrias “maduras”
receberá que tipo de atenção?
As indústrias maduras precisam de condições
melhores para investir. Mas, nesse caso, se trata de uma escala
muito pesada de investimentos. A indústria automobilística,
por exemplo, já anunciou que a cadeia toda deve investir,
nos próximos quatro anos, um total de 20 bilhões
de dólares: metade nas montadoras e metade no parque de
autopeças. E por que investimentos deste vulto? Porque
a capacidade produtiva já está no limite. Então
você precisa dar o passo seguinte que é aumentar
a capacidade produtiva com eficiência, produtividade e qualidade,
para ela estar preparada quando tiver de enfrentar a concorrência
internacional - que virá. A idéia é passar
a capacidade do parque automotivo de 3,5 milhões de veículos,
hoje absolutamente tomada, para 6,6 milhões, já
considerando uma demanda de 1,5 milhão de veículos
do Mercosul. Com isso, já poderíamos enfrentar China
e Índia, que já se tornaram grandes produtoras de
veículos. Uma grande iniciativa do nosso plano de desenvolvimento
produtivo é desonerar a produção. O Brasil
é um dos poucos países em que você compra
a máquina e paga imposto sobre o equipamento antes de ele
começar a produzir...
“Todos os países que
dizem não ter uma política industrial têm.
Até países altamente industrializados, como
os EUA, protegem-se muito bem. Temos de negociar tudo, mesmo”
|
A indústria brasileira ainda é altamente
protegida, como alegam os países ricos?
O grau de abertura industrial do Brasil ao mundo ainda é
baixo. Em alguns segmentos, a alíquota de importação
é bastante alta. Agora, do meu ponto de vista, isso tem-se
mantido assim em razão das dificuldades enormes que o Brasil
e todos os países emergentes têm de discutir as novas
relações internacionais e comerciais. Há
países que fazem esta crítica a nós porque
têm, de fato, alíquotas de importação
baixas. Mas é preciso compreender que estes países
já atingiram um estágio avançado. Eles começaram
um processo de consolidação lá no século
XVIII, na Revolução Industrial. E tiveram dois saltos
expressivos, um na primeira e outro na segunda guerra mundial.
E nós temos uma indústria que, embora bastante importante
e sofisticada, tem apenas 50, 60 anos. É uma base industrial
pós-guerra. Nós nos livramos de guerras, mas em
compensação ficamos um país agrícola.
E, no campo agrícola, quem reclama de economias
fechadas é o Brasil.
Se você exportar para os Estados Unidos um automóvel,
paga só 6% de imposto. Em compensação, a
produção agrícola brasileira sofre uma taxação
brutal para entrar lá. A taxação sobre o
etanol, por exemplo, torna proibitiva a entrada do produto nos
Estados Unidos. Eu acho que o país fez muito bem, nesses
últimos anos, ao decidir não abrir desenfreadamente
sua base industrial. Porque, agora, temos uma moeda de troca para
fazer com que os norte-americanos e principalmente os europeus
ofereçam contrapartidas na área agrícola.
Eu discordo do que fez, por exemplo, o presidente Collor em 1990.
Foi uma abertura sem a menor troca. Nós não renegociamos
nada. Já a Argentina, quando fez sua abertura, conseguiu
grandes vantagens com o FMI, com o Clube de Paris... E com uma
economia que é um quarto da brasileira. Então não
podemos ser o bom mocinho. Nós temos de negociar tudo,
mesmo. Vamos abrir a indústria brasileira? Vamos abrir
o país para a competição industrial? Tudo
bem, mas que os outros países se abram também para
os nossos produtos que são competitivos na área
agrícola.
Qual é o ponto virtuoso entre, de um lado, não
tornar a economia tão protegida que premie a ineficiência
e nem tão aberta que exponha de modo injusto a economia
brasileira?
Só um reparo à pergunta:em comércio, não
há justiça. Há competição...
Outra ressalva: embora o imposto de importação de
automóveis seja de 35%, a desvalorização
do dólar torna competitivo trazer carros dos Estados Unidos,
por exemplo. Por que não entram carros importados, então?
Por que não teve continuidade aquela importação
de centenas de milhares de automóveis que ocorreu no período
em que vigorou uma proteção muito menor? É
porque em determinados setores a importação do produto
é só o começo de um processo muito mais longo
e muito mais sofisticado, que envolve o pós-venda. Você
tem que ter uma rede de revendedores, de assistência técnica,
principalmente num país de 8 milhões de quilômetros
quadrados... E isso não é fácil. Várias
marcas estiveram aqui e depois saíram, não agüentaram
o processo que se desencadeia após a venda. Voltando à
questão das alíquotas de importação,
volto a insistir: não se pode ser ingênuo. Mesmo
os países que são altamente industrializados, como
os Estados Unidos, se protegem muito bem. Nos Estados unidos,
você paga 6% de imposto de importação para
veículos de passageiros, mas o produto que é muito
rentável para a indústria americana, que são
as camionetes, é taxado em 25%. Ninguém sabe disso,
ninguém diz que nos Estados Unidos aplica-se 25% de alíquota
de importação sobre os veículos que são
extremamente rentáveis para a indústria americana.
Quer política industrial mais pesada do que a política
industrial chamada indústria de defesa (agora, você
chama de defesa, não chama mais bélica, para ser
politicamente correto) dos Estados Unidos? Que se espraia, inclusive,
por grande parte da indústria americana. Nós faríamos
a mesma coisa aqui, tem que fazer.
Política industrial é historicamente associada
a subvenções e favores em socorro a um ou outro
setor. Como escapar desse receituário?
A mudança de conceito com a qual nós temos trabalhado
é a seguinte. Você não precisa ter política
industrial... Não, oficialmente. Todos os países
que dizem não ter política industrial, têm.
De uma maneira ou de outra, têm. Quer política industrial
mais pesada que a chamada indústria de defesa dos Estados
Unidos, que antigamente era chamada de indústria bélica?
É uma política que se espraia por grande parte da
indústria norte-americana. Nós faríamos a
mesma coisa aqui. Tem que fazer. Por exemplo, você usar
as compras do Governo como uma política de fortalecimento
de um determinado setor... É absolutamente correto. Está
previsto no comércio internacional. Se o Ministério
da Saúde gasta bilhões na compra de um equipamento
que precise ser importado, por que não negociar a instalação
de um fabricante no Brasil, oferecer um programa tarifário
para que ele comece importando componentes até que se forme
uma rede de fornecedores locais? A indústria naval é
um exemplo da importância deste mecanismo. Em 1970, o Brasil
era o segundo maior produtor de navios do mundo. Tínhamos
aqui todos os maiores estaleiros, que na época eram japoneses.
Mas nós deixamos de comprar navios dos estaleiros brasileiros,
que entraram em crise e fecharam. Agora, quando o país
tem uma enorme necessidade de comprar e fretar navios fabricados
por estaleiros no exterior, por que não usar a capacidade
de compra da Petrobras para fazer com que os estaleiros brasileiros
produzam navios no Brasil, que é o que fez, por exemplo,
a Coréia? Conversamos com Petrobras e, mais ainda, com
a Transpetro, que é a transportadora da Petrobras e precisava
de 50 navios... Em vez de esperar três ou quatro anos para
que um estaleiro da Coréia faça o navio, porque
não levar os mesmos três ou quatro anos e fazer este
navio no Brasil?
A indústria de defesa, no Brasil, pode favorecer
outros setores?
Sem dúvida. A defesa está associada, por exemplo,
com parque aeronáutico. Estamos em discussão avançada
para termos aqui no Brasil, além do Esquilo, que é
um helicóptero pequeno, a produção de um
aparelho maior, um helicóptero de transporte. As Forças
Armadas têm a necessidade de ter um avião de transporte
para substituir os Hércules e Búfalos que o Brasil
tem. Se a nossa Embraer já tem a capacidade de produzir
aviões que estão entre os melhores do mundo na sua
categoria, por que ela não pode adaptar seus projetos para
fabricar um avião de carga que possa ser usado, inclusive,
para fins militares? É isso o que estamos negociando com
a Embraer.
Qual é exatamente o papel do governo nesse projeto?
Estamos negociando com a Embraer porque, para se instalar esta
nova perna no setor aeronáutico, é preciso contar
com a ajuda do governo. Esta ajuda significa o quê? Significa
as Forças Armadas dizerem claramente: "Realmente,
nós temos interesse nisso e queremos comprar tantos aviões."
Aí teremos uma encomenda firme, para que a empresa comece
a investir sabendo que, lá na ponta, há um grande
cliente que vai comprar o avião. Esta nova política
industrial, o chamado projeto de desenvolvimento produtivo, traz
como novidade uma coordenação muito grande entre
os ministérios. Isso existiu na fase dos governos militares,
mas aí era uma coordenação de cima para baixo:
mandava-se fazer e acabou. Depois, as coisas passaram a funcionar
de outro jeito: se o projeto é do ministério X,
o ministério Y não se sente responsável.
Agora, isso está mudando. Nós discutimos muito com
o Ministério da Saúde, por exemplo, para entender
o que a pasta compra, em que volumes, quais suas necessidades.
E a partir daí, por exemplo, começamos negociações
com uma fabricante de aparelhos de hemodiálise para que
passe a produzir no Brasil. Na área de transporte, negociamos
com a General Electric a retomada da produção de
locomotivas no Brasil, algo que já tivemos nos anos 70.
E a companhia já decidiu que transferirá dos Estados
Unidos para o seu parque industrial de Contagem uma fábrica
de locomotivas pesadas, máquinas de 10 mil toneladas. E
a GE já tem 30 encomendas. Por que se consegue fazer isso
agora? Porque as ferrovias foram privatizadas e estão recebendo
muitos investimentos, e também porque a indústria
da mineração está apresentando um crescimento
muito intenso e demandando mais transporte. Então você
tem uma conjugação de fatores. Não adiantaria
nada querer trazer ferrovias e indústria de vagões
para o país há 6 anos. Ia transportar o quê?
(...)
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