| Desde que foi criada, em 1886, a Coca-Cola conquistou
o paladar e o coração de milhões de pessoas, de
várias gerações e das mais variadas culturas –
e se transformou na marca mais conhecida e mais valiosa do mundo. Apesar
de centenária, ela continua vendendo, com algumas pequenas alterações,
o mesmo xarope cor de caramelo inventado pelo farmacêutico John
Pemberton, nos Estados Unidos. O último lançamento da
marca no Brasil, a Coca-Cola Zero, foi um sucesso de vendas. A própria
logomarca sofreu poucas alterações ao longo desses mais
de 120 anos e, no entanto, continua um símbolo de jovialidade.
Mas, afinal, qual o segredo das marcas que conseguem se renovar continuamente
e permanecer sempre atuais?
“Quando uma marca permanece forte, independentemente da época,
nunca é por uma única razão. Existe um conjunto
de variáveis que influenciam a percepção que os
consumidores têm da marca, inclusive os atributos de modernidade
e atualidade”, afirma Guilherme Belluzzo, sócio e consultor
da Top Brands. Gerenciar esse conjunto de variáveis – que
engloba desde as estratégias de negócios até o
fortalecimento da identidade e a forma de se comunicar com os clientes
– é o principal desafio das marcas que desejam se tornar
perenes. “O segredo do sucesso está na capacidade de adaptação,
em cada época, às novas demandas e anseios dos consumidores”,
afirma Ângela Hirata, que até 2005 foi diretora de comércio
exterior da São Paulo Alpargatas e hoje atua como consultora
da empresa. Ângela sabe do que está falando. Na Alpargatas,
ela foi a responsável por todo o processo de renovação
e internacionalização da marca Havaianas.
“As legítimas”, a propósito, fornecem o
melhor exemplo de marca que passou por um processo de renovação
radical. No início dos anos 90, seus chinelos eram um produto
barato, sem nenhum atrativo e usados principalmente por quem não
podia calçar algo melhor. “Não passavam de uma commodity
da cesta básica”, brinca Ângela. Com uma nova estratégia
comercial, novo posicionamento de marca e muitos milhões investidos
em marketing, as antigas Havaianas se tornaram, em poucos anos, um produto
da moda e passaram a ser usadas até por celebridades de Hollywood.
Nem sempre, porém, o processo de renovação da
marca exige transformações radicais. Há casos em
que as mudanças são mais suaves. No chamado processo de
atualização, a marca vai se adequando gradativamente às
novas exigências do mercado, de modo que o consumidor quase nem
percebe essa evolução. “Talvez o mais importante
não seja uma única grande mudança, mas os pequenos
e freqüentes avanços que a marca vai fazendo ao longo tempo”,
comenta Belluzzo. A rede de farmácias Panvel, no extremo sul
do país, é um exemplo que se enquadra no conceito de constante
atualização. Uma das últimas iniciativas foi a
reforma visual dos pontos-de-venda, que foram divididos em diferentes
padrões. As lojas Express são as localizadas em pontos
de extrema conveniência, como supermercados. Já as Promocionais
ficam em ruas de grande movimento e forte concorrência. Por fim,
o modelo de loja Bem-Estar e Beleza enquadra aquelas localizadas em
shopping centers ou bairros de elevado poder aquisitivo. A meta da Panvel
é adaptar ao novo padrão todas as 250 lojas da rede, em
quatro anos – quando já estará quase na hora de
mudar de novo. “Temos como objetivo remodernizar o projeto arquitetônico
das lojas a cada sete anos”, antecipa Julio Mottin Neto, diretor
de marketing da Panvel.
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No processo de renovação, a rede gaúcha também
passou a investir com mais força nos produtos com marca própria.
Entre os casos de sucesso estão a linha de hidratantes Panvel
Secret, inspirada na Victoria’s Secret, e a Panvel Vert, uma linha
de xampus e condicionadores com aromas de frutas exóticas. A
participação dos produtos Panvel nas vendas vem crescendo
a uma taxa de 15% ao ano. No último Natal, por exemplo, metade
dos itens de perfumaria vendidos na rede levavam a marca Panvel. “As
linhas Panvel Secret e Make Up, de maquiagem, trouxeram muitas consumidoras
adolescentes para nossas lojas. E isso é muito importante para
o futuro da marca”, comenta Mottin Neto.
No meio termo entre a mudança radical, promovida pela Havaianas,
e a atualização suave, caso da Panvel, há o tipo
de intervenção que os especialistas chamam de revitalização
ou ativação da marca. Esse tipo de ação
é necessário quando a marca está há alguns
anos sem promover mudanças e começa a perder vitalidade
– podendo perder, também, mercado para concorrentes mais
arrojados. É o que aconteceu com a Mu-Mu, fabricante de doces
de leite e de frutas desde 1945. Há quatro anos, a empresa decidiu
aproveitar a tradição da marca para expandir a linha de
produtos. “Notamos que a marca Mu-Mu era forte e que podia ser
mais bem utilizada”, conta Luiz Alberto Hochegger, diretor-geral.
Assim, a empresa passou a comercializar também leite em saquinho,
leite condensado, creme de leite, barrinha de cereais e alfajores –
todos com a marca Mu-Mu. Também está erguendo uma unidade
para envasar leite longa vida. O portfolio ampliado permitiu
à empresa entrar em segmentos de produtos com maior abrangência
de consumo. “Os doces têm um consumo mais restrito”,
explica Hochegger. Com isso, o faturamento da companhia saltou de R$
16 milhões para R$ 80 milhões em cinco anos.
Produto é renovação
Além de manter a marca sempre viva, o lançamento constante
de novos produtos traz, muitas vezes, benefícios em cadeia. Não
raro, um lançamento de sucesso termina por turbinar as vendas
dos outros produtos da marca que já estavam no mercado. “Com
o lançamento do iPhone e do iPod, por exemplo, mais pessoas passaram
a comprar computadores Macintosh”, exemplifica Eduardo Tomiya,
diretor-geral da BrandAnalytics.
A Nestlé, uma das mais tradicionais fabricantes de alimentos
e com forte identificação com o ramo de laticínios
e achocolatados, é um caso típico de aproveitamento da
marca para abarcar um enorme portfolio de produtos. O resultado, claro,
é uma imagem sempre renovada e atual – apesar de seus 140
anos de história. “A Nestlé é um exemplo
de solidez e consistência. Ela atua no Brasil em diferentes segmentos
e mantém em todos eles o mesmo entendimento de qualidade”,
diz João Castanho, sócio-diretor da Thymus Branding.
Criar linhas de produtos secundários – que podem ficar
no mercado só por algum tempo – também pode ser
uma arma para manter a marca em evidência.
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É o que fez, por exemplo, a Havaianas ao lançar a linha
Havaianas Socks, de meias para usar com as sandálias –
inspiração tirada do figurino das gueixas japonesas, que
usam chinelos com meias. A própria Coca-Cola lançou a
The Coca-Cola Clothing, para licenciar a fabricação de
roupas com a marca de bebidas. No Brasil, as coleções
são comercializadas pela catarinense AMC Têxtil, que também
é dona das grifes Colcci e Forum, esta comprada recentemente.
Os especialistas advertem, no entanto, que nem sempre é possível
aproveitar a força da marca para ampliar o leque de produtos.
Algumas grifes são tão fortes que seria impensável
para o consumidor que outro produto usasse aquela identificação.
“São casos nos quais a força do produto engessa
a própria marca”, destaca Tomiya, da BrandAnalytics. Maizena
e Bombril são os casos mais clássicos. Ambas se tornaram
sinônimos do produto e conquistaram tamanha força junto
aos consumidores que se tornou difícil lançar outros itens
com essas marcas – ou até mesmo fazer modificações
significativas na identidade visual ou nas embalagens.
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